Cavalcante (GO): jornalista goiano revela a escravidão doméstica e sexual de crianças negras e pobres

127 anos depois da Lei Áurea, meninas quilombolas ainda são exploradas de todas as formas / Foto: Reprodução Rede Record
127 anos depois da Lei Áurea, meninas quilombolas ainda são exploradas de todas as formas / Foto: Reprodução Rede Record

Por João Carlos Barreto – O poder das trevas chegou à região Kalunga de Cavalcante, a 320 km de Brasília.

Meninas que ainda brincam de bonecas e jovens moças, negras e pobres, são transformadas em escravas domésticas e sexuais.

Crianças a partir de nove anos já foram estupradas, nessa lista, inclusive, existe uma senhora kalunga com mais de 80 anos que nem se deu ao trabalho de registrar um boletim de ocorrência, pois seria mais um número em alguma gaveta qualquer na delegacia local.

Luta contra o sistema

Muitas matérias, muitos holofotes para autoridades, políticos e grupos sociais, mas de pratico mesmo não aconteceu nada, só mídia. Apenas o medo continua nas vítimas e famílias que sofrem, muitas buscam ignorar o assunto – melhor fingir que não aconteceu nada. Algumas chegam ao ponto de procurar a polícia e retirar a queixa crime, com medo e com a impotência de quem não pode lutar contra o sistema. Porém, o silêncio angustiante delas grita por Justiça, mas ninguém parece ouvir.

João Carlos Barreto: "Os estupradores continuam por lá livres, leves e soltos. As vitimas cultivam o medo e a insegurança com a impunidade. Muitas já desistiram e pediram a retirada das denuncias pelos mais variados motivos, sendo o mais obvio: o medo de represarias dos estupradores"
João Carlos Barreto: “Os estupradores continuam por lá livres, leves e soltos. As vitimas cultivam o medo e a insegurança com a impunidade. Muitas já desistiram e pediram a retirada das denuncias pelos mais variados motivos, sendo o mais obvio: o medo de represarias dos estupradores”

Veja esse relato. É apavorante

“Uma menina entra no mercado, olha uma família feliz, marido esposa e filhos, classe média, felizes. A jovem negra tenta sumir numa nuvem imaginária, as pernas tremem, o frio do medo percorre sua espinha dorsal: Ali está o seu agressivo violentador. Ela foge sem comprar nada”.

Isso poderia ser uma frase de ficção, mas não é. Assim foi um dos relatos que recebi. O encontro de uma menor kalunga, vitima de estupro, ao ver seu agressor e a família num comércio qualquer de um dia qualquer. O tempo passa e a justiça vira utopia, se distancia da realidade, a vítima tem que se acostumar e levar os traumas do corpo, da mente e da alma. Tudo segue para o esquecimento. Mas não, ainda não!
Afro descendentes e seus grupos midiáticos que ainda não conseguem enxergar devidamente o drama das meninas kalungas estupradas, uma luta ainda a ser vencida. Parece que aquelas vítimas são afro marcianas. Que não merecem uma atenção especial para seu drama, logo elas que nasceram em um quilombo, criados por fugitivos da escravidão no século passado em busca da liberdade no Centro-Oeste brasileiro. Só encontram, hoje, outro tipo de sofrimentos. Só que parece invisível para muitos.

Atê quando?

Por que não vão às autoridades judiciárias e políticas ver como está a situação do processo? Por que os agressores ainda não foram presos? Por que não vão até aquelas quilombolas saber como estão passando, convivendo com a impunidade?

Meninas, de 9 a 14 anos de idade, são exploradas de todas as formas por famílias que deveriam protegê-las / Foto: Reprodução Rede Record
Meninas, de 9 a 14 anos de idade, são exploradas de todas as formas por famílias que deveriam protegê-las / Foto: Reprodução Rede Record

Um drama mostrado nas redes sociais, na mídia impressa e em rede nacional de TV. Ponham a mão na consciência, lembre-se de Zumbi dos Palmares, mas também se lembrem daqueles quilombolas que continuam nas senzalas do medo e do trauma.

Infelizmente citamos o belo município de Cavalvante, em Goiás, mas até onde se pode apurar a questão do drama das meninas não passa pela administração municipal, mas pela Justiça e a Segurança Pública do Estado de Goiás. Haverá um dia em que a Justiça será feita, os agressores punidos de acordo com a Lei, aí vamos falar de turismo do belo potencial turístico numa das mais belas regiões do país. Uma fonte geradora de emprego e renda que levara prosperidade a todos em geral.

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