De filho de gente comum a vice-presidente da OAB

Morador há mais de 30 anos do Jardim América, ex-zagueiro do Goiás, hoje, atua como vice-presidente da OAB-GO

Por Fernanda Kalaoun

Nascido no antigo Bairro Popular, hoje o alvoroçado Setor Central de Goiânia, o vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de Goiás (OAB-Go), Sebastião Macalé, é um goianiense modelo nos quesitos sucesso e carisma. Morador do gigante Jardim América há mais de 30 anos, Macalé, que também marcou a história do futebol goiano como zagueiro do Goiás Esporte Clube, na década de 1960, fica encantado ao observar o quanto sua cidade evoluiu desde os tempos de infância.

Quando menino, morava de fundo para o Estádio Olímpico, na Avenida Paranaíba com a 74. Era só pular o muro e já dava de cara com dois campinhos de terra, onde jogava futebol com a molecada. “Tive uma infância muito alegre, com privilégios que pessoas mais jovens não têm. Por exemplo, a gabiroba mais deliciosa de Goiânia ficava onde é hoje a Praça Tamandaré. Na Assembleia Legislativa, onde existe o córrego, a água represava e nadávamos ali. Chupei muito buriti que caía do pé sobre a água. Lavávamos na própria água onde a gente nadava e comia. São privilégios de quem viu Goiânia nascer e crescer”, recordou.

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Quem o conhece como vice-presidente da OAB, não vislumbra a simplicidade de espírito e o sorriso singelo do “filho de gente comum do povo”, como o próprio se denomina. Filho de alfaiate, a mãe era dona de casa. Ambos com estudos apenas em Ensino Fundamental. Entretanto, a formação escolar dos filhos sempre foi prioridade para o casal. Macalé estudou no extinto Instituto Araguaia, dirigido pelo saudoso professor Múcio de Melo Alvares. Nesta mesma instituição, também frequentava o filho do governador à época. Sua formação deu continuidade nos tradicionais Colégio Atheneu e Lyceu de Goiânia.

Futebol

Em meados dos anos 1950, o futebol era marginalizado. A sociedade não enxergava como profissão séria, mas atividade de desocupados e beberrões. Entretanto, o pequeno Macalé possuía um talento para jogar bola que deixava todo mundo boquiaberto. Preocupados com o futuro do filho, os pais fizeram o menino prometer bom desempenho no colégio em troca do futebol. Macalé tinha entre dez e doze anos. A conversa coincidiu com sua entrada no Goiás.

“Na época em que fui para o Goiás, o time se qualificava em quarto ou o quinto lugar na cidade. Em primeiro, ficava o Atlético-Go. Depois o Vila Nova, seguido do Goiânia. Aí vinha o Goiás. Isso quando não ficava atrás do Sírio-libanês, time da colônia de sírio-libaneses em Goiânia. Goiás era um time fraco. O menor deles”, contou. Macalé explica que não sabe ao certo se fora a cor esmeraldina do time ou os jogadores – mais inclinados para a vida acadêmica – que o atraiu para o clube.

“O primeiro ano em que tive oportunidade de disputar o Campeonato Juvenil, pelo Goiás, vencemos. Primeira vez que competimos no Campeonato Goiano, fomos campeões. Há muitas coincidências entre minha história e a do Goiás”,  disse. Quando o XV de Piracicaba pousou em Goiânia para um amistoso contra o Alviverde, a diretoria do clube paulista deixou o Estado decidida a levar Macalé.

Futebol paulista

Com quatorze anos, Sebastião Macalé atuou como mensalista no Estado. Se afastou para servir o exército e, mais tarde, foi convidado para assumir como chefe de almoxarifado, no lugar de Milza Accioly. A carreira como servidor público parecia promissora. Mas quando o time paulista procurou a família do zagueiro e, também, Baltazar de Castro, na época presidente da Federação Goiana de Futebol, Macalé balançou. Finalmente convenceram o zagueiro a deixar o Goiás para jogar como titular, por quatro anos, na divisão especial do futebol paulista.

Em 1971, Ditão, zagueiro do Corinthians, sofreu uma contusão e acabou afastado do time. Macalé foi o primeiro nome cogitado para substituir o jogador. Mas as negociações com o XV não foram bem sucedidas. O acordo desceu pelo ralo e, com ele, as esperanças de Macalé ganhar projeção para, quem sabe, ser escalado à Seleção Brasileira. Outras ofertas de grandes times, como Vasco da Gama, Botafogo-RJ e Portuguesa, também foram rejeitadas pelo XV de Piracicaba.

Quando o Luís Carlos quebrou a perna em uma jogada, o Corinthians novamente recorreu à zaga do XV. Mas, desta vez, o time liberou Ademir Gonçalves. Se sentindo frustrado por ter sua ida para o Corinthians barrada, Macalé procurou a direção do time para anunciar que permaneceria apenas até o fim do ano. O rompimento com o clube coincidiu com o convite de retorno ao Goiás, que disputaria seu primeiro Campeonato Brasileiro.

Quando voltou para Goiânia, Macalé estava a um ano de concluir seus estudos em educação física. Foi quando resolveu dar um rumo completamente diferente à carreira. Optou pelo direito. O vice-presidente lembrou com humor dos ex-colegas de futebol, que temiam que de tanto estudar, Macalé perderia o juízo. “Para as pessoas da época, quem estudava muito ficava louco”, riu.

Carreira política

Ainda como jogador, foi convidado para se candidatar a vereador de Goiânia. “Meus amigos pediam pra que eu não me envolvesse com política. Diziam que uma coisa não tinha nada a ver com a outra”, recordou o ex-zagueiro. “Já naqueles tempos, a política estava descredibilizada. Diziam pra eu não mexer com esse tipo de gente”, disse. Como sempre teve vocação para liderança, Macalé decidiu aceitar o desafio de atuar como vereador.

Quando Iris Rezende foi nomeado prefeito, em 1982, convidou Sebastião Macalé para assumir a liderança da Secretaria de Ação Urbana. “Minha passagem por lá foi muito feliz. Lembro de relatar um projeto que proibia grandes edificações no centro, que permitia o crescimento dos setores Bela Vista e Bueno”, contou. O vice-presidente recordou, ainda, de uma matéria do finado Folha de Goiás menosprezando seu projeto. Hoje, Macalé se orgulha de ter participado do crescimento daquela região. Depois, com a eleição de Nion Albernaz, assumiu a pasta de Esporte e Lazer.

Filiado desde o ano passado ao Partido Social Democrático (PSD), foi convidado para se candidatar a deputado federal. Porém, na atual conjuntura, não vê possibilidades de retornar à carreira política. “Minha primeira obrigação é com a OAB, minha instituição. Meu compromisso é com a advocacia de Goiás”, declarou Macalé.

Preconceito

“Nunca senti fortemente nenhum preconceito. Me preparei para disputar com os cabeças. Tive berço e soube que mesmo jogando futebol, deveria priorizar meus estudos para ser alguém. Quando tomei as rédeas, fui para Piracicaba e prestei vestibular. Havia um quadro qualificando os dez melhores resultados. Passei em quinto lugar”, contou.

Em Piracicaba, Macalé foi reconhecido como melhor zagueiro pela Associação dos Cronistas Esportivos de São Paulo. O troféu seria entregue em um clube italiano que possuía claras restrições a negros. “Fui até lá, subi as escadas e recebi meu prêmio. Agradeci e fui embora. Não iria ficar. Eles nunca aceitaram negros e eu não queria saber da história. Apenas recebi meu prêmio e fui embora. Quebrei um paradigma”, afirmou.

Jardim América

Antes de escolher o Jardim América, Macalé conta que morou na Avenida T-63, no setor Nova Suíça. Com a abertura da avenida, disse que viver ali tornou-se impraticável. O áudio da televisão, por exemplo, fora abafado pelo som dos carros. “Troquei a T-63, asfaltada e com água tratada, pelo Jardim América. Na época havia poeira para todo lado e a água era de cisterna”, contou Macalé.

“Adoro minha casa, onde moro há mais de trinta anos. O crescimento da cidade, um dia, me fará sair de lá, mas resistirei enquanto puder. Como parlamentar, coloquei suas primeiras iluminações. Levamos, junto ao Estado, o Ciams. Projetamos três escolas – Escola Municipal João Paulo II, Escola Municipal Professor Moacyr Monclar Brandão, Escola Municipal Professora Maria Camargo -, trabalhei na rede de água e asfalto enquanto estive na prefeitura, dentre outras coisas”, explicou.

O vice-presidente destacou, ainda, o bom relacionamento com a vizinhança. “Meus vizinhos são como parentes. Ainda em meio aos prédios, somos resistentes. Trocamos frutas. Somos uma vizinhança que se considera uma grande família”, disse.