Jovem relata assédio de professor da UnB e procurador antes de suicídio

Professor é desligado da UnB após ser acusado de abusar de aluna| Foto: Divulgação
Professor é desligado da UnB após ser acusado de abusar de aluna| Foto: Divulgação

O professor e procurador Rafael Santos de Barros e Silva será desligado da Universidade de Brasília (UnB) depois de ter sido acusado de assédio pela bacharel de direito Ariadne Wojcik em sua carta de suicídio. A jovem de 25 anos foi encontrada morta no mirante da Chapada dos Guimarães (MT), a cerca de Km de Cuiabá, na tarde desta quarta-feira, 9.

Segundo o diretor da Faculdade de Direito da UnB, Mamede Said, Rafael Silva atuava como professor voluntário. Não recebia, portanto, salários da universidade. A direção avalia que ele não possui “condições de concluir o semestre”.

Muito chocados com a morte da ex-aluna, colegas de curso estão em busca de explicações. Nas redes sociais, estudantes dizem que Ariadne era gentil e querida por todos. Eles tentam compreender o que houve com a jovem e a participação do professor no caso.

Mamede Said se reuniu com os coordenadores da graduação para avaliar como poderão contribuir com as investigações policiais e tranquilizar os universitários.

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De acordo com o docente, seu relacionamento com Ariadne era “estritamente profissional”. Segundo ele, a ex-aluna sofria “distúrbios psiquiátricos”.

Entenda o caso

Ariadne Wojcik formada em Direito pela UnB anunciou o suicídio no Facebook| Foto: Reprodução/Facebook
Ariadne Wojcik formada em Direito pela UnB anunciou o suicídio no Facebook| Foto: Reprodução/Facebook

A jovem Ariadne cometeu suicídio minutos depois de postar uma carta no Facebook em que denunciava que sofria abuso por parte de seu superior no escritório de advocacia e anunciou que tiraria sua vida.

“Que na próxima reencarnação eu possa fazer uso de todo aprendizado que tudo isso me trouxe, mesmo com tanta dor e sofrimento. Essa vida eu já não posso mais suportar, que Deus me perdoe e me entenda, mas ele já sabia, ele sempre sabe”, escreveu.

De acordo com o docente, na mensagem, a jovem relatou que em um dos estágios profissionais que realizou, sofreu abuso por parte de um dos professores da UnB, proprietário do escritório de advocacia onde estagiou e procurador do DF. “Comecei no estágio novo super empolgada, eu achava aquele professor o máximo, extremamente inteligente, detalhista, perspicaz, minucioso, brilhante. Como poderia ser ruim?”

Tempos depois, segundo Ariadne, o professor passou a persegui-la e monitorá-la. “Eu percebi que estava diante de uma mente extremamente brilhante, maquiavélica, calculista, psicopática.”

No fim da carta, a jovem contou que decidiu deixar o emprego e se mudar para Cuiabá, sua cidade de origem, mas as perseguições não cessaram. Por isso, após esse “longo ano”, estava “exausta”, não tinha “mais forças” e não via mais saída. Veja abaixo íntegra da mensagem. “Essa vida eu já não posso mais suportar, que Deus me perdoe e me entenda, mas ele já sabia, ele sempre sabe”, concluiu.

A Polícia Civil (PC) informou que abriu um inquérito para investigar as causas. De acordo com o delegado Diego Martiminiano, pessoas próximas à jovem devem ser ouvidas nos próximos dias. “O taxista que levou a jovem até o local onde ela foi encontrada deve prestar depoimento. Os pais da jovem também vão ser ouvidos”, afirmou.

Estudantes da UnB realizam homenagens a jovem morta| Foto: Divulgação
Estudantes da UnB realizam homenagens a jovem morta| Foto: Divulgação

Comoção na UnB

Ainda na noite desta quarta, cerca de 100 pessoas se reuniram no pátio da Faculdade de Direito da UnB para acender velas e fazer orações em homenagem à jovem.

Entre os presentes, estava um ex-namorado de Ariadne, que teve um relacionamento com ela durante o curso. Durante um discurso, o rapaz, também formado na UnB, afirmou que “ela era uma pessoa maravilhosa e que sempre desejou o bem a todo mundo. Rezem e peçam por ela, que isso vai fazer bem”, disse.

Outra amiga da jovem cobrou, durante a homenagem, mais ação contra casos de assédio. “Ela não foi a primeira nem a única que sofreu com esse tipo de situação. Muitas de nós já sofremos abusos psicológicos. Isso precisa acabar”, explicou.

Psicologia

O psicólogo forense da Polícia Civil de Goiás (PCGO), Leonardo Faria, disse que as agressões ainda se iniciam no início de qualquer relacionamento. Elas geralmente são agressões verbais, com xingamentos, tentar privar a vítima de contatos físicos com outras pessoas. Com isso, a pessoa começa a ter prejuízos em suas relações diárias, como no caso, a mulher desenvolve depressão.

Leonardo destaca também que com o passar do tempo, o agressor vê a vítima como um objeto de valor e que, por conta disso, se torna uma posse. Para Faria, o agressor são pessoas perturbadas que tiveram traumas na infância e não reconhecem uma opinião divergente.

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