Missão do conselheiro tutelar perde batalha para o pragmatismo político

Com raras exceções, zelar pela proteção das crianças e dos adolescentes deixou de ser prioridade

A causa nobre que representa a eleição dos conselheiros tutelares nos municípios brasileiros caminha para um terreno movediço.

Interesses diversos transformaram o pleito, realizado no último dia 6 de outubro, numa ferrenha disputa entre grupos políticos – com e sem mandato – e tendências religiosas (católicos x evangélicos).

Quem ouviu apenas reclamações pontuais sobre enormes filas e desorganização em Goiânia e Aparecida não tem a mínima ideia do que rolou nos bastidores da eleição.

O poder econômico, como sempre, fez a diferença naquela que é considerada a grande prévia para escolha dos vereadores em 2020.

Eleitores “profissionais” admitem, reservadamente, ter recebido incentivo financeiro e de transporte no caminho até a urna.

Situação que os Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, juntamente com o Ministério Público, jamais conseguirão coibir.

Causa nobre que representa a eleição dos conselheiros tutelares nos municípios brasileiros caminha para um terreno movediço político | Foto: Reprodução
Causa nobre que representa a eleição dos conselheiros tutelares nos municípios brasileiros caminha para um terreno movediço político | Foto: Reprodução

Inocência

A pergunta que não quer calar: então por que os candidatos prejudicados, com algumas exceções, não denunciaram as irregularidades e tentaram anular o processo eleitoral?

A resposta está na ponta da língua de Edmir Santos, presidente da comissão eleitoral de Santos (SP), cidade onde o pleito está manchado por uma série de irregularidades.

“Quem rouba uma cabeça de alho ou uma caixa de alho, ambos são ladrões. Geralmente o que roubou menos, olhando para a quantidade do outro, se considera inocente”, resumiu com sarcasmo.

Curitiba (PR) e mais 15 outros municípios brasileiros enfrentam o mesmo impasse diante de uma eleição acirrada, desigual e com raros mecanismos de controle por conta do desconhecimento das regras.

Bairros de Aparecida poderão votar em 20 novos conselheiros tutelares | Foto: Jhonney Macena
Conselho Tutelar, Aparecida de Goiânia | Foto: Jhonney Macena

Pragmatismo

O mandato de conselheiro tutelar se resume hoje a três eixos: bom salário (R$ 3 mil a R$ 5 mil), estrutura deficitária para execução do trabalho e, o mais desejado, influência eleitoral em futuras disputas. A possibilidade de reeleição é ilimitada.

E pensar que a missão número 1 dos conselheiros é a de zelar pela proteção de crianças e adolescentes. Teoricamente, um papel de extrema relevância na sociedade.

Faltou combinar com o pragmatismo político. Só há uma certeza: em 2024, o número de candidatos oportunistas e o poder econômico serão bem maiores.

Sai resultado final da eleição do Conselho Tutelar de Aparecida


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