Drauzio Varella e Suzy | Foto: Reprodução / Rede Globo
Drauzio Varella e Suzy | Foto: Reprodução / Rede Globo

Por Ian Caetano*

Causou muito alvoroço a postura de Drauzio Varella quando de uma demonstração de solidariedade prestada à trans Suzy por ocasião de uma reportagem apresentada no programa Fantástico, da Rede Globo, sobre as condições em que vivem as encarceradas transexuais no Brasil.

Manifestou-se muita gente indignada, antes sensibilizada pela edição da narrativa (que a humanizava), com a descoberta de um crime hediondo cometido pela trans, o que motivou revolta pública contra o apresentador da reportagem – Drauzio – e, estranhamente em menor medida, contra a rede de televisão que veiculou – e produziu – a matéria.

Evidente que queremos todos justiça e readequação, mas, convenientemente, esquece-se aqui um detalhe: não se estava a falar daqueles ou daquelas pessoas trans abandonadas por outrora afetos ou familiares pela gravidade do crime cometido, mas sim da realidade brutal que enfrentam principalmente mulheres e transexuais com relação ao abandono e desamparo em comparação a homens.

Tive, por força de atividades políticas, ocasião de certa vez fazer vigília à porta do presídio de Bangu, no Rio de Janeiro. Por volta das duas da matina começava uma fila enorme para as visitas.

A fila começava meados deste horário para adentrarem as pessoas no complexo penitenciário apenas por volta das nove da manhã. A esmagadora maioria: mulheres.

Por questões sociais algo – ainda que de forma diluída e assistemática – óbvias, o abandono de encarcerados é muito maior entre mulheres que entre os homens, e ainda maior para com minorias sociais estigmatizadas como as trans.

A oferta de alugueis de imóveis no entorno de Bangu é sustentada em grande parte por mulheres que, para poderem com maior facilidade visitar seus parceiros, alugam uma quitinete, ou quarto, na região.

O contrário raramente sucede (não preciso entrar em detalhes, são abundantes as estatísticas; mas, para quem quiser maiores informações, recomendo o livro “presos que menstruam”, de Nana Queiroz).

Criminosos de toda sorte: pedófilos, estupradores, estelionatários, ladrões de carga, culpados de latrocínio… crimes mais socialmente abomináveis, crimes menos socialmente abomináveis.

Entretanto, todos com uma periódica – e socialmente aceita como razoável – permissão à recepção de entes próximos que lhes entreguem o mínimo de manutenção da sanidade por via do afeto e uma solidariedade que os ajude a perceber que, a despeito dos equívocos de outrora, ainda há amparo e a possibilidade de outros caminhos.

Não estou aqui a relativizar. Há coisas bárbaras que um ser humano pode fazer ao outro e mesmo eu – um humanista radical – tenho, quando ouço determinados relatos, também minhas pulsões de justiçamento pelas vias extrajurídicas.

Entretanto, o que parece é que uma edição jornalística infeliz – que colocou uma pessoa, lamentavelmente, culpada de um crime horrível – serve agora de base para obnubilar uma questão igualmente dramática e triste: as pessoas trans são abandonadas. Não era ali um caso atípico, uma anormalidade.

Aquilo é a regra. Seja a trans culpada de um simples furto de pão por conta da fome (dada a rejeição crônica destas pessoas no mercado de trabalho formal), seja aquelas e aqueles que, por razões diversas, cometem crimes mais graves, o abandono é a regra. Era disso que se tratava a matéria.

Outro aspecto que desnuda este preconceito crônico com transexuais é o ataque a um cidadão que merece o respeito inconteste por seus serviços prestados à sociedade brasileira.

Drauzio Varella é dos maiores – e talvez o pioneiro, junto ao sociólogo Betinho – divulgadores científicos brasileiros.

Lembro-me criança assistir no Fantástico as campanhas públicas que didaticamente apresentava ele sobre doenças sexualmente transmissíveis e pequenas práticas cotidianas para mitigar a proliferação de doenças em geral (como ferver água, a assepsia periódica das mãos, o tempo ideal para troca de roupas íntimas, etc.).

Num país com desenvolvimento absolutamente precário e desigual como o nosso, quando o estado não consegue de maneira uniforme atender toda a população, pode até parecer banal este tipo de “serviço” a um morador das metrópoles, mas nos interiores, onde o estado não chega (ou chega muito precariamente), mas um parco sinal de televisão sim, é de um bem social inestimável.

Muitas pessoas sequer têm consciência dos serviços e coisas que gratuitamente o sistema único de saúde oferta-lhes e que lhes é de direito; este tipo de divulgador é fundamental para que estas informações cheguem a elas.

Vidas inteiras são salvas por este tipo de empreita e, neste caso, ainda que não considere eu o meio ideal de prestação (visto que deveria vir formalmente pelo estado), é por via destes ocasionais guerreiros que temos acesso a informações que melhoram a vida da população.

Os ataques que tem sofrido Drauzio – um sujeito que já declarou incontáveis vezes não manifestar publicamente apoio partidário ou a candidatos (sequer a uma posição ideológica mais delimitada) precisamente por achar que isso mais atrapalha sua vocação do que auxilia – mostram como o preconceito contra transexuais é mitocondrial na sociedade brasileira (não atoa, o país que mais consome pornografia trans – portanto, um país que as objetifica – e o que mais mata pessoas trans – ou seja, as desumaniza).

Um outro aspecto absolutamente aberrante da situação é que – independente da razoabilidade ou não da queixa dos que desinformados sentiram-se – as “críticas” (pois que soam mais como ataques) estejam a ser endereçadas a ele de maneira desproporcional vis-à-vis as endereçadas à rede de televisão que produziu a matéria.

Esta sim responsável pelo roteiro, produção, edição, seleção de entrevistadas. Uma vez mais: isso nem justifica as críticas, pois o ponto ali não era que tipo penal padece de maior ojeriza por parte da sociedade, mas mostrar como, no quadro geral, transexuais sofrem muito mais com o abandono social (família e próximos) do que sofre um preso do sexo masculino que seja responsável por mesmo crime.

A invizibilização, a objetificação, a estereotipização, a ausência afetiva e o banimento social com que tipicamente defrontam-se as pessoas trans não podem ser defendidos por sinédoques tão toscas.

Mais uma vez a manifestação de um preconceito que quer plasmar em uma identidade de gênero comportamentos que são gerais e de quaisquer seres humanos – potencialmente falando.

Quantos “assassinos em série” não recebem cartas de declaração de amor e isso é tratado na mídia como excentricidade ou até mesmo evento ludicamente curioso? Onde estão as vozes exaltadas dos cidadãos de bem?

Vamos a algumas coisas que este comportamento demonstra:

  1. preconceito contra as pessoas trans (em vários níveis, alguns acima expostos);
  2. desajuste entre entendimento da responsabilidade por um crime – com o qual qualquer pessoa deve arcar – e o sofrimento por uma condição de abandono – que pode ter relação com a natureza do crime, mas é intrinsicamente estruturada pela questão de gênero ali posta e, por fim;
  3. um entendimento de que o sistema de punição social deve ser o de retaliação/vendeta, e não o de recuperação da pessoa que algum tipo de crime ou delito cometeu.

Como eu expliquei ao início: não dou afago em criminoso, quem comete algum tipo de crime que atenta contra outrem – de qualquer maneira que seja – tem de ser responsabilizado por aquilo que fez (nas devidas proporções do crime cometido, por óbvio), entretanto, uma coisa é eu desejar que esta pessoa seja responsabilizada, pague pelo que fez e seja reabilitada ao convívio social; outra, bastante diferente, é, com saliva nos cantos da boca, gargalhar com a ideia de que ela apodreça numa masmorra sofrendo pela eternidade com toda sorte de maus tratos e desamparo.

Mais uma demonstração de como a “indignação” pela postura do médico e da emissora tem trago, por contrabando, à tona os preconceitos, os veículos de mídia mais conhecidos pelo tom conservador (como Jovem Pan, RedeTV! e outros) insistem em não tratar a trans em questão pelo seu nome social.

Uma atitude, sabemos, que não só é ofensiva com toda a comunidade trans, como é violação de um direito adquirido por estas pessoas que, criminosas ou não, têm de tê-los preservados.

Espero que Suzy pague pelo que fez – um crime grave – mas igualmente espero que o cinismo das pessoas diminua. A seletividade do julgamento moral é bastante clara, em termos comparativos.

Um homem que comete um crime bárbaro tem muito mais amparo dos teus que uma mulher ou uma pessoa trans.

Por fim: força, Drauzio. Teus anos de trabalho e de dedicação à melhoria da saúde preventiva neste país e teu jornalismo consistente quanto à questão carcerária são de valor sem precedentes na história nacional.

Que não te desanimem meia-dúzia de boçais preconceituosos e oportunistas que, por tangentes, querem pagar de arautos da moralidade, quando, na verdade, anseiam apenas uma desculpa para manifestar seu ódio.

*Ian Caetano é doutorando em sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), mestre pela mesma instituição e graduado em ciências sociais pela UFG.

Guia gastronômico de petiscos no Centro de Goiânia


Acompanhe a Folha Z no Instagram (@folhaz), no Facebook (jornalfolhaz) e no Twitter (@folhaz)

Comentários do Facebook