O abismo da ditadura por Ferreira Gullar

Jogo Limpo com Rodrigo Czepak

Poeta maranhense Ferreira Gullar foi eleito para Academia Brasileira de Letras para a cadeira 37, sucedendo o poeta e tradutor Ivan Junqueira | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Poeta maranhense Ferreira Gullar foi eleito para Academia Brasileira de Letras para a cadeira 37, sucedendo o poeta e tradutor Ivan Junqueira | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Falecido neste final de semana, o escritor Ferreira Gullar, 86 anos, nos deixou poemas brilhantes. Um deles cai como luva para grupos radicais que foram às ruas protestar contra a corrupção. Justamente aqueles que morrem de amores pela volta do regime militar. “Fechem o Congresso Nacional”, gritaram com eloquência em capitais e cidades de médio porte. Lembrete de Gullar: o abismo da ditadura, ops, o abismo da poesia não respeita nada, relincha e incendeia o país sob o manto obrigatório do silêncio e da opressão.

O regime democrático tem seus defeitos, porém o direito à manifestação é sagrado, desde que se respeite a ordem e o contraditório. Não deixou de ser irônico encontrar no mesmo protesto faixas defendendo a ditadura militar e cartazes exaltando os grandes feitos do juiz Sérgio Moro – o Super-Homem do magistrado brasileiro. O mais claro exemplo da mistura entre água e óleo, impossível de acontecer num ambiente de exclusão. Ferreira Gullar, como em grande parte de seus poemas, coloca o dedo na ferida por ter sentido na pele a fúria do universo de um só pensamento, de uma só língua. Leitura obrigatória.

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Subversiva – Ferreira Gullar

A poesia

Quando chega

Não respeita nada

Nem pai nem mãe

Quando ela chega

De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil

Infringe o Código de Águas

Relincha

Como puta

Nova

Em frente ao Palácio da Alvorada

E só depois

Reconsidera: beija

Nos olhos os que ganham mal

Embala no colo

Os que têm sede de felicidade

E de justiça

E promete incendiar o país

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