Goleiro Bruno não é exemplo, é um ser humano

Jogo Limpo com Rodrigo Czepak

Goleiro Bruno foi contratado pelo Boa Esporte, clube que está na Segunda Divisão do Brasileiro | Foto: Reprodução
Goleiro Bruno foi contratado pelo Boa Esporte, clube que está na Segunda Divisão do Brasileiro | Foto: Reprodução

Não recebi e nem desejo ter uma procuração do goleiro Bruno para defendê-lo. Aos 32 anos, sendo seis deles passados dentro da prisão, ele já é suficientemente maduro para pagar pelo envolvimento no homicídio triplamente qualificado da ex-amante Eliza Samudio. Apenas discordo frontalmente da campanha contra o Boa Esporte Clube promovida por internautas. O time mineiro decidiu abrir as portas para o reinício profissional do jogador e nada tem a ver com a morosidade judicial no país. Uma vez em liberdade, Bruno pode e deve voltar aos gramados.

Fantasmas pela frente

É necessário deixar a hipocrisia de lado. O goleiro venceu uma batalha apenas, não a guerra. Continuará enfrentando o fantasma de um possível retorno às grades e também a ira da mídia e de muitos torcedores que não aceitam a sua contratação. Bruno, definitivamente, não encontrou uma zona de conforto. Muito pelo contrário. Ele vai permanecer na berlinda enquanto durar o contrato com o clube mineiro. Mas isto não o impede de recomeçar a carreira, escorado no apoio da esposa, familiares e amigos.

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As vítimas de Edmundo  

“E como ficam a mãe e demais parentes de Eliza Samudio?”, questiona a multidão de insatisfeitos com a liberdade temporária do goleiro Bruno. Resposta na ponta da língua: ficam com o mesmo nó na garganta dos familiares das vítimas atingidas violentamente pelo carro do então jogador Edmundo no Rio de Janeiro. Depois do acidente, o atacante retomou a carreira e mais tarde virou comentarista esportivo da Rede Bandeirantes. À época não foi registrada qualquer mobilização contra a contratação do ex-jogador pela emissora paulista, mesmo com o processo judicial ainda tramitando.

Sem pena de morte

Durante a primeira entrevista coletiva do goleiro na manhã desta terça-feira, 14, um repórter lhe perguntou se ele se considerava exemplo para as crianças que fossem ao estádio. O jogador preferiu não responder. Caso não fosse obrigado a seguir orientação de advogados e dirigentes, Bruno poderia dizer que não é exemplo, mas é um ser humano à procura de sentido na vida. Os revoltados de plantão esquecem que não há pena de morte, muito menos prisão perpétua no Brasil. Isso se aplica aos Hildebrandos, aos Guilhermes de Pádua e aos Tiagos Gomes da Rocha espalhados por aí, pra citar apenas três exemplos.

A indignação é compreensível, pena que ela seja seletiva. O mesmo cidadão que protesta contra o goleiro fecha os olhos para jogadores que fomentam o tráfico de drogas – principal causa de uma infinidade de mortes – e dirigentes que desviam dinheiro e até tramam homicídios em prol da “bandeira” de seus clubes. Deixa pra lá, afinal a bola da vez do gol contra do momento atende pelo nome de Bruno Fernandes de Souza.

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