Dois pesos, duas medidas para rainhas da ostentação

Jogo Limpo com Rodrigo Czepak

 

a advogada é hoje o retrato do sofrimento, vestida com uniforme presidiário e usando terço no pulso esquerdo
a advogada é hoje o retrato do sofrimento, vestida com uniforme presidiário e usando terço no pulso esquerdo

A bola da vez na mídia

Presa no Complexo Penitenciário de Bangu, a advogada Adriana Ancelmo passou a ser a bola da vez em fotos e textos na mídia. Mulher do ex-governador Sérgio Cabral (RJ), também preso, a advogada é hoje o retrato do sofrimento, vestida com uniforme presidiário e usando terço no pulso esquerdo. Nem de longe lembra a principal cliente de joalheria, apelidada de “Lourdinha”, que recebia presentes milionários do marido e mochilas com R$ 200 mil a R$ 300 mil semanais em propinas. Enquanto Adriana vive o seu inferno astral, surge a pergunta inevitável: qual trunfo carrega a jornalista Cláudia Cruz, a senhora Eduardo Cunha, para não estar enfrentando consequências semelhantes?

Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha | Foto: divulgação
Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha | Foto: divulgação
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Amnésia e lentidão

Independente do critério das operações distintas – Calicute e Lava Jato – Cláudia agiu, mentiu e ostentou tanto quanto Adriana. A ex-apresentadora da Rede Globo não abusou das joias e do dinheiro em espécie, mas teve amnésia súbita sobre R$ 600 mil depositados em 2007 e uma conta corrente na Suíça, bloqueada pela Justiça, com a bagatela de R$ 9,6 milhões. Bolsas, sapatos e jantares de luxo serviram como referência para justificar a fúria no uso do cartão de crédito, acrescentando US$ 60 mil em aulas de tênis na Flórida (EUA). O pior de tudo é saber que o processo por evasão de divisas e lavagem de dinheiro anda a passo de tartaruga nas mãos do implacável juiz Sérgio Moro, em Curitiba (PR).

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Livre, leve e solta

As poderosas Adriana Ancelmo e Cláudia Cruz riram o quanto puderam da polícia, da Justiça e da sociedade em geral. Pintaram e bordaram com dinheiro público, contribuindo para encobrir parte das mazelas dos maridos famintos por propinas. O cidadão comum não consegue compreender como uma dos integrantes do Quarteto Fantástico da Roubalheira Carioca continua livre, leve e solta após tantas falcatruas. Justamente a jornalista que na década de 1990 apresentou o programa semanal “Fantástico”. São essas discrepâncias jurídicas que atordoam os brasileiros ávidos por um país mais justo e transparente.

Adriana e Cláudia deveriam estar dividindo a mesma cela de seis metros quadrados em Bangu. Teriam muito tempo para discutir a nova tendência da moda em Paris e os melhores investimentos no mercado de valores. Tudo isso regado a pão com manteiga no café; arroz, feijão, farofa e carne de porco no almoço. Choque de realidade melhor, impossível.

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